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Do Baú dos Disruptores: “Álbum da Glasvegas reafirma a relevância do “som de Glasgow””

Deve ser algo com a água. Senão isso, não vejo alternativas coerentes para explicar o porque de, nos últimos dez, quinze ou vinte anos, Glasgow, na boa Escócia velha de guerra, surgirem bandas com grandes chances de nos apontar alguma direção frente ao marasmo. Nomes como Jesus & Mary Chain, Primal Scream, Franz Ferdinand, Mogwai e Teenage Fanclub são exemplos de que, em algum momento, como em um ato de bondade divina, o cenário musical voltou seus olhos para as highlands . Talvez esta seja a missão da Glasvegas: banda que sapecou seu álbum de estréia homônimo e vem colecionando elogios – e críticas, pois ninguém é de ferro -, despontando como uma das novidades aparentemente promissoras de 2008.

Glasvegas, o disco, é um trabalho consistente, maduro e, mais que isso, revestido pelo que acredito ser necessário a qualquer trabalho de arte: uma certa dose tragicômica ideal para provocar nossos sentidos. Bebendo ora na fonte concebida por Phil Spector, ora nos conterrâneos, a Glasvegas consegue um resultado que surpreende e, mais que isso, não nos deixa mais em paz. Depois de duas audições de Daddy’s Gone, faixa de trabalho do grupo, garanto que algo não abandonará seu hipotálamo por um certo tempo…

Mas, de volta ao princípio, com uma mistura que sublima o pop com guitarras etéreas na medida certa, Glasvegas acerta ao misturar harmonias que enveredam pelo mais adocicado pop na mesma proporção em que explora temas pouco simplórios. Senão isso, como explicar um tema ensolarado como You Are My Sunshine fechando uma típica canção-fossa como Flowers And Football Tops. Ironia ferina e nos seus melhores acordes, diga-se.

Dito isso, o disco segue em um crescendo. Somente isso para explicar canções como It’s My Own Cheating Heart That Makes Me Cry que, como o título já sugere, praticamente obriga o ouvinte a procurar o bar mais próximo para afogar quaisquer das suas mágoas – passadas ou vindouras.

Geraldine, por sua vez, é sobre um anjo da guarda/assistente social que resgata almas atormentadas antes que estas cometam alguma cagada, é um dos pontos excepcionais do disco. Assim, uma banda que emenda uma canção cujos versos são “I will, I will turn your tide/Do all that I can to heal you inside/I’ll be the angel on your shoulder/My name is Geraldine, I’m your social worker” tem tudo para figurar na minha lista de boas novas.

Mas o disco não é só uma trilha para afogar as mágoas. Go, Square Go é uma ajuda moral para quem em algum momento teve que enfrentar o valentão da escola. Revestida por uma atmosfera bubblegum que faria corar o velho Spector, a canção é uma das mais improváveis do disco.

Por sua vez, é com Daddy’s Gone que o disco se manifesta em plenitude. Impossível não perceber ecos das Ronettes, dos grupos vocais das décadas de 50 e 60, todos emprestando sua doçura e sonoridade para a construção de uma canção com tema cavernoso: um acerto de contas entre um filho e seu pai ausente. Daddy’s Gone impressiona: toma forma, ganha força e, nos seus segundos finais, explode em guitarras sobrepostas. Há algum tempo o termo wall of sound não ganhava uma representação tão a altura.

No fim, com Ice Cream Van, podemos perceber que Glasvegas pode até ser mais um hype daqueles, porém, fechando o disco, vem mais um empurrão: “There’s a storm on the horizon/And for that I can’t see the sun/For I’ll keep a waiting on the pavement/For the ice-cream van to come“. E assim somos novamente questionados: por que Glasgow e sua música conseguem nos provocar de modo tão singular? No fim, acho mesmo que deve ser a água…

MySpace: http://www.myspace.com/glasvegas

Site: http://www.glasvegas.net/

Confira: Geraldine

Disruptores, 29 de Agosto de 2008.

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Do Baú dos Disruptores: “Fábulas ou ‘Quando os Contos de Fadas Perdem a Compostura’”

Na primeira vez em que li alguma coisa sobre Fábulas – série da linha Vertigo da DC -, torcer o nariz foi minha reação. Não sei, mas, naquele momento, aparentemente, não estava no clima certo – somente isso para explicar o porquê de não ter sido arrebatado, como fui agora, por esta que é, desde já, uma das mais interessantes HQs dos últimos tempos.

Para muitos, Fábulas é herdeira direta de Sandman – os órfãos de Morpheus insistem nesta tecla; acredito que não é bem por aí. A série de Bill Willingham – criada em 2003 e desde então um sucesso entre os fãs de HQs – detém vida e qualidades próprias: segundo o autor, desde criança imaginava o que aconteceria se os personagens de contos de fadas e fábulas fossem retirados de seus universos originais.

Que caminhos percorreriam tais personagens? Qual teria sido o destino de Chapeuzinho Vermelho depois da morte do Lobo Mau? O que aconteceu com a Branca de Neve depois de se casar com o Príncipe Encantado? Todas as fábulas vivem felizes para sempre? Willingham formula algumas alternativas interessantes para estas e outras perguntas – algumas respostas são, na maioria das vezes, nenhum pouco infantis.

A verdade é que Fábulas – lançada no Brasil inicialmente pela Devir e agora sob os cuidados da Pixel Media – nos conduz através das desventuras das fábulas e seu exílio em nosso mundo. Expulsos pelo misterioso Adversário, muitos dos personagens das histórias de Esopo, Grimm e tantos outros buscaram refúgio em nosso mundo depois que as tropas do invasor inimigo passaram a perseguir e destruir um a um os reinos destas criaturas.

Fundaram, depois de sua chegada ao mundo dos humanos, uma comunidade conhecida como Cidade das Fábulas, nos arredores de Nova York, e, ora liderados pela Branca de Neve – depois que essa, traída pelo Príncipe Encantado, desencanou dos bonitões –, se organizam para aquela que pode ser a batalha final contra o Adversário.

No Brasil, como disse, a Devir lançou dois volumes encadernando os dois primeiros arcos de Fábulas (estes, justamente, não me chamaram a atenção inicialmente). Em junho, com o terceiro número da Pixel Magazine, a Pixel Media deu continuidade à trama.

O Último Castelo foi a aventura escolhida pela editora para reiniciar a cronologia da série por aqui: uma aventura que mostra o último reduto de resistência das fábulas contra as investidas do Adversário. Com ilustrações de Craig Hamilton e roteiro de Willingham, O Último Castelo é uma das HQs mais impressionantes que tive a oportunidade de ler: não somente por sua trama, mas pelo refinamento com que as situações paralelas transcorrem, mostrando o talento de Willingham.

Mas, se você realmente deseja entender porque Fábulas é realmente uma das melhores HQs dos últimos tempos, a sugestão é 1001 Noites cujo terceiro número está nas bancas: escrita por Willingham e ilustrada por artistas do calibre de James Jean (atualmente, capista oficial da série), Brian Bolland (A Piada Mortal e Camelot 3000) e Jill Thompson, 1001 Noites é arrebatadora.

Não apenas nos responde muitas das perguntas que figuram soltas durante a série, mas, graças à Branca de Neve, nos conduz através de uma inteligente recriação das 1001 Noites. Na aventura, em busca de apoio para a batalha contra o Adversário que se aproxima, Branca de Neve segue em direção ao mundo das fábulas do Oriente.

Branca de Neve termina prisioneira do Rei Shahryar – personagem de As 1001 Noites e, bem, um corno mal-resolvido que, noite após noite, executa suas esposas. Para livrar-se do destino de suas antecessoras, Branca de Neva passa a narrar as desventuras de seus iguais e parte de sua trajetória até a Cidade das Fábulas.

A partir daí somos apresentado ao talento de Willingham em contar histórias incríveis: 1001 Noites é um ótimo cartão de visitas para os que ainda não conhecem a série. Mordi a língua e não me arrependo: Fábulas detém todas as indicações de que se transformará em um clássico e Willingham um dos grandes escritores de HQs desta geração.

Disruptores, 16 de Agosto de 2007.

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Do Baú dos Disruptores: “Morrison, Quitely e Os Doze Trabalhos do Homem de Aço”

Um Superman como nunca se viu. Esta é a primeira impressão que o leitor terá ao conferir Grandes Astros: Superman que chegou às bancas brasileiras em Janeiro e agora pousou nas minhas mãos. A publicação apresenta ao público brasileiro as “diabruras” que vêm sendo promovidas pela dupla Grant Morrison & Frank Quitely no título All-Star Superman.

Os dois foram responsáveis por uma das revistas mais bacanas de 2005, We3, e também pela revolução que tomou conta dos X-Men quando da passagem de Morrison pela publicação – meses antes da DC Comics renovar seu passe junto à editora. Morrison já tinha passado pela DC e deixado sua marca: Homem-Animal, Os Invisíveis e o clássico Asilo Arkham são alguns dos petardos do cidadão – sem falar na fase da Liga da Justiça roteirizada por ele e sua incursão pela séria DC: Um Milhão. Know-how o cidadão tem de sobra…

A linha All-Star, no EUA, vem redefinindo alguns dos principais personagens da DC. A idéia é bem simples: grandes nomes – roteiristas, ilustradores, arte-finalistas, etc. – com total autonomia criativa para redefinirem (caso de All-Star Batman & Robin, lançada aqui sob o título de Grandes Astros: Batman & Robin que está sob o comando de Frank Miller e Jim Lee) ou mesmo conduzir seus personagens através de novas perspectivas.
Capa deGrandes Astros: Superman lançada em janeiro pela Panini Comics

No caso de Grandes Astros: Superman, a idéia de Morrison é que cada edição detivesse vida própria; as aventuras não fariam parte de um imenso arco ou dependeriam disso para apresentar algum sentido. No entanto, mesmo sob tal conceito, as aventuras fariam parte de algo apelidado pelo autor como “Os Doze Super-Desafios”; uma profissão de fé a qual o Homem de Aço se submeteria. All-Star Superman está em sua sexta edição lá fora e, tendo lido todas, posso dizer que a aposta de Morrison é alta e inovadora à estratosfera…

Na primeira edição, para ter-se uma idéia – justamente aquela que chega ao Brasil – os quatros quadros que inauguram esta nova fase contam a origem do personagem: sem firulas, frescuras e outras bobagens. Morrison foi saudado por resgatar o herói – recém saído dos eventos meia-boca de Crise Infinita – e apresentá-lo de uma maneira, pra ficar em um adjetivo menor, empolgante.

A edição, como disse, abre com quatro quadros traçando a origem do Superman; depois disso, saltamos direto para o Sol e lá nos deparamos com os Helionautas: um grupo de cientistas do Projeto DNA que promovem pesquisas na superfície solar. A ação decorre quando uma criatura enviada por Lex Luthor pretende explodir a expedição.

Uma das sacadas interessantes desta apresentação é, primeiro, o diálogo entre Luthor e o General Lane. É neste instante, quando Luthor chega à conclusão de que seus dias estão irremediavelmente acabando e o Superman não envelhece, que somos apresentados à linha que guiará a trama de alguns dos próximos capítulos da série: Lex Luthor movendo o planeta para obter sua vitória sobre o Homem de Aço.

Após a derrota do “homem-bomba” criado por Luthor, Superman é alertado que seu passeio pela superfície solar sobrecarregou suas células e que estas começaram a morrer. Sua fonte de energia decretou sua morte… Mais uma vez Grant Morrison faz um passeio pelo mundo ultra-tecnológico: replicação por DNA Bizarro; citações a Ray Bradbury; Nanotecnologia; tudo que possa virar a cabeça do leitor ao avesso – assim como fez com We3 e Os Invisíveis…

Depois de retornar a Terra – tendo descoberto que sobram-lhe poucos dias de vida –, Superman tem em mente algumas ações que somente comprando a revista você descobrirá…

Bem… Se de um lado temos o genial roteirista chamado Grant Morrison, de outro temos o traço de Frank Quitely. Devo ter uma lista de pelo menos quinze adjetivos enaltecendo a técnica de Quitely: todos não conseguem chegar perto da qualidade do trabalho do cidadão. A capa desta primeira edição, por exemplo, fala por si: um Superman sereno, sentado em uma nuvem sobre Metrópolis, aproveitando os primeiros raios de um nascer do Sol. Incrível…

No interior da revista, Quitely dá vida às pirações de Morrison com seqüências e planos impressionantes. Um dos exemplos mais incríveis é aquele que narra o intervalo entre o diálogo entre Luthor, General Lane e o Homem-Bomba a bordo da nave Ray Bradbury. Outro ponto alto é o encontro do Superman com as cópias produzidas pelo Projeto DNA a partir das células de Bizarro – culminando com a apresentação dos Titãs Expedicionários e Nanonautas.

O estilo de Quitely – grandiloqüente e minucioso – tem sido uma das causas para os atrasos da publicação, fazendo com que os fãs arranquem os cabelos enquanto esperam a próxima edição. Apesar de tudo, Quitely continua imbatível: seu traço e cuidado com as cores lembra o estilo de Moebius – provavelmente uma de suas influências…

No mais, meu caro, gaste alguns Reais (R$ 3,90 para ser exato) e confira a primeira edição de Grandes Astros: Superman. Deixe de ser mão-de-vaca…

Disruptores, 15 de Fevereiro de 2007.

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Artigos, Baú dos Disruptores

Do Baú dos Disruptores: “Lust Lust Lust, Raveonettes e Um Certo Lado Pop do Rock’n’Roll”

Diferente de seus pares surgidos com o “boom do indie rock” no início desta década, o Raveonettes se distingüia por flertar com uma sonoridade que flertava com o mais açucarado pop e o mais carregado feedback; do pandemônio de ruídos do Velvet Underground a Phil Spector e seu wall of sound, passando por crias deste cruzamento como Sonic Youth, Cramps e Jesus & The Mary Chain.

Piada fácil, logo as comparações ganharam o dia e a associação entre o som do Raveonettes e o JAMC ganhou mais atenção que o que a banda tinha a dizer; inspiração sobrepujando e obscurecendo inspirados: como se todos estivessem órfãos e procurando por um pouco de doçura e barulheira, o Raveonettes – como o Black Rebel Motorcycle Club – tiveram o “666 dos Reid” tatuado na testa. Entretanto, com a sucessão de discos, o que para muitos parecia pura “chupação” passou a cristalizar-se como marca do groupo. Lust Lust Lust, novo álbum dos dinamarqueses, comprova tal evolução.

O quarto trabalho do Raveonettes pode aparentar apenas um passo adiante na devoção que a banda nutre – especialmente Sune Rose Wagner (Guitarras e Vocais) – por bandas do quilate de JAMC, Sonic Youth e Velvet Underground. Porém como uma a primeira audição pouco ou nada pode dizer sobre um disco, basta um pouco de atenção à discografia da banda – e mais um pouco em torno de Lust Lust Lust – para que, após uma leitura das entrelinnhas, esta impressão perca seu sentido (ou pelo menos não se apresente como a mais evidente).

Como seu predecessor, Pretty in Black (2005), Lust Lust Lust soa mais contido – diferente de Whip it On (primeiro trabalho de 2002) e The Chain Gang of Love (2003). Contido, mas não limitado: é visível a evolução do Raveonettes enquanto banda; o mais grudento pop mesclado à muralha de feedbacks de guitarra tranformam canções como Aly, Walk With Me e Dead Sounds em canções impecáveis.

Reside aí, nesta combinação de elementos estranhos, mas não improváveis, uma das marcas do Raveonettes: Ronettes e Velvet Underground brincando com canções que beiram o mais grudento bubblegum embalados sob uma fórmula básica – canções com até quatro minutos e que tenham o acorde Bb Menor em sua base.

Em Lust Lust Lust, por sua vez, a “fórmula” é encarada como uma premissa para a construção de um álbum sólido. Aly, Walk With Me abre o disco e demonstra muito bem tal idéia: uma canção climática, densa e grudenta ao cubo. Hallucinations segue a mesma linha: cresce, explode e volta à contenção para repetir o mesmo processo e termina tomando de assalto nosso hipotálamo. Os vocais de Wagner e Sharin Foo (Baixo/Voz), beirando em alguns momentos o etéreo – lembrando Phil Spector -, pontuam ainda mais as canções com uma atmosfera pop.

Dead Sound e Black Satin são, desde já, duas das melhores canções do ano: perfeitas e donas de uma sonoridade capaz de fazer um bispo da Universal bater o “pezinho” desesperadamente e se perguntar se o “tinhoso” tem algo a ver com isso. Vale acrescentar que, com You Want Candy, esse mesmo cidadão se perguntaria o que diabos seria aquela sensação que o obriga a assobiá-la incontrolável e inexplicavelmente.

Lust Lust Lust periga não entrar em muitas das listas de melhores do ano; não chegará sequer perto de ser considerado como tal – o posto, até o momento, segue com PJ Harvey e seu impressionante White Chalk – mas merece a condição de “última grande surpresa de 2007″. Não é todo o dia que temos a chance de ouvir um disco verdadeira e deliciosamente divertido; um disco que teima em apontar para o lado divertido de se estar vivo: o tesão pelo rock’n’roll em sua melhor e mais pop tradução.

Disruptores, 9 de Dezembro de 2007.

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Cinema, Crítica

O Coringa e seu inegável Eterno Retorno…

Vejam… Durante muito, o Coringa de Alan Moore para A Piada Mortal, considerado por muitos a HQ definitiva acerca da relação do personagem com o Batman. O conto de Moore é uma história de fundação para o personagem e se juntava a várias outras leituras que estabeleciam o personagem como o vilão definitivo, a contraparte tanto de Bruce Wayne e do próprio Batman: uma força incontrolável – e que ao mesmo tempo levantava dúvidas sobre a capacidade do cruzado embuçado de derrotá-lo.

Nas telas, o Coringa ganhou algumas leituras…

Na TV, César Romero e sua caricatura insana para o personagem na série do Batman da década de 1960 foi fundamental para o estabelecimento de uma lógica particular: a do palhaço alucinado e, mesmo louco, capaz de tirar gargalhadas por suas tiradas. Aquela era a lógica e esta dialogava com as HQs – estas reprimidas por um código de conduta que restringia os limites do personagem.

Mas tal código de conduta perderia o sentido com o fim dos anos 1970 e a renovação que se seguira com os anos 1980-1990…

É a partir daí que a imagem do Coringa começa a ser dissecada/construída em diferentes aventuras – desde A Piada Mortal (1988), de Alan Moore e Brian Bolland, passando por Morte em Família (1988-1989), de Jim Starlin e Jim Aparo, e chegando a Asilo Arkham (1989), de Grant Morrison e Dave McKean – que de certa maneira estabeleceram as fundações do personagem no período pós-Crise nas Infinitas Terras e estas se estabeleceram como que alinhadas com as premissas distópicas estabelecidas por Frank Miller para o Batman e seu principal adversário em O Cavaleiro das Trevas (1986).

É nesta transição pós-Crise que o Coringa assume suas facetas mais assustadoras e emerge como uma força dona de uma identidade multifacetada e, ao mesmo tempo, cativante – não sendo por acaso que o personagem dispute o coração dos fãs do Batman como uma de suas forças primordiais (algo que desagua de certa forma na visão proposta para o personagem por Scott Snyder em Morte da Família, arco de 2012 em que o Coringa ataca toda a bat-família buscando destroçá-la.

Algo que fica claro ao longo das décadas de aventuras do Batman contra seu maior inimigo é que ele, o Coringa, sempre volta. Seja caindo de um helicóptero, baleado fatalmente, preso no Arkham, desaparecendo nas águas ao redor de Gotham ou qualquer outro evento que o tire de cena, é certo que ele retornará para mais um embate.

Podemos dizer que o Coringa nas telas lida com a mesma dinâmica: um eterno retorno, como se cada uma de suas encarnações nas telas funcionasse como elementos em constante complementação/expansão: a loucura niilista do personagem em um filme se recombina com a resistência ao real e seus atores em outro. O Coringa sempre retorna em busca de uma nova chance.

Este me parece o ponto deste novo filme. O Coringa que lá está interpretado de modo brilhante por Joaquin Phoenix é impecável, mas distinto daquele de Heath Ledger ou o de Jack Nicholson: aqueles são outros Coringas que alimentam e emprestam algo a este último; outros Coringas, cada qual com suas peculiaridades, atribuindo sentidos ao mesmo sujeito.

O Coringa de Joaquin Phoenix não é menos potência que aquele de Heath Ledger ou Jack Nicholson: cada um desses intérpretes contribuíram para uma identidade fílmica do personagem. Porém, a interpretação de Phoenix para o longa de Todd Phillips lida com outros demônios: a gênese de Arthur Fleck no grande vilão que é o Coringa é um mergulho na psiquê de alguém que adoece ante o mundo, o real e este adoecer o faz implodir.

Fleck cai e ao levantar-se o faz como o Coringa. O personagem levanta tanto como ofensa quanto ofendido e quer a desforra. O enlouquecer de Fleck, demonstrado em diferentes cenas e que culmina com a gênese do Coringa, guarda profundas semelhanças com aquele do protótipo de gangster sem-nome que mergulha em uma piscina de reagentes químicos para escapar do Batman em A Piada Mortal de Alan Moore: temos uma dinâmica semelhante que nos envolve no adoecer de ambas as versões de um mesmo sujeito.

Por isso que a versão de Ledger é a de outra faceta para o mesmo palhaço; por isso que a de Nicholson dialoga com outra face do mesmo personagem – aquela espalhafatosa e cômica dos anos 1960 de modo mais evidente. O Coringa de Phoenix e Phillips nos apresentara uma grande história de fundação que nunca fora contada até aqui – seja nas telas ou nos quadrinhos.

O grande mérito deste Coringa de Phonix é que a tela ficou pequena para a explosão de emoções que nos envolve, forçando-nos a discutir o quão grandiosas foram diferentes personificações de um mesmo papel. Esta não é uma versão definitiva para o personagem, mas seu recomeço que recolhe elementos de todos que vieram antes dele.

Este é mais um dos muitos retornos de um vilão à espera de seu nemesis… Um retorno triunfal e peculiar; um sério retorno em um sério mundo, diga-se.

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Artigos, Crítica, Música

“Dummy” do Portishead completa vinte e cinco anos urgente e viçoso como nunca…

Estou ficando velho… Verdade, estou. Não lembro quando ouvi Dummy do Portishead pela primeira vez: pra falar a verdade, creio ter começado a ouvir a banda em algum momento dos anos 1990 enquanto me enterrava nas noites de domingo vendo o que diabos o Fábio Massari tirava da cartola no Lado B MTV

Creio que foi Numb, mas juro não ter certeza. Só lembro da garotinha cantando junto com a Beth Gibbons e como aquilo era, ao mesmo tempo, estranho, moderno e desconfortavelmente lindo. O Portishead se tornou, a partir daquele instante, uma das minhas obsessões da segunda metade dos anos 1990: precisava ouvir/ver/ter tudo o que eles produziriam/produziram porque, bem… Porque sim!

Dummy é de 1994. Naquele ano, em Natal, no Rio Grande do Norte, ainda estávamos embalados pelas camisas de flanela do Grunge e que tais. Como expliquei, só viria a prestar atenção ao Portishead através dos vídeos que pescava no Lado B MTV sob a batuta do Fábio Massari. É provável que tenha ouvido o disco pela primeira vez entre 1997 e 1998: mas, naquele ano, já tínhamos em rotação o Portishead, segundo disco da banda de Madame Gibbons e sua trupe.

Portishead, o disco, é tão brilhante quanto Dummy, mas a urgência do primeiro se sobressai. Era jazzy, moderno, um salto à frente de seu tempo: não tínhamos idéia do que diabos era trip hop ou o quão a música eletrônica evoluiria a partir dali, mas aquele disco soturno, com uma capa azulada e que trazia o frame de um curta – To Kill a Dead Man, para ser mais exato – que a banda produzira para lançar o álbum, era tudo o que mais queríamos ouvir…

Dummy completa 25 anos. Incrível como aquele primeiro disco do Portishead envelheceu bem, mantendo todo seu viço e frescor. Parabéns a Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley por brindar-nos com um trabalho tão belo e consistente: vocês não têm a menor idéia de quantas noites e tragos foram acompanhadas por esta obra-prima que vocês puseram no mundo…

Ainda espero poder ter a companhia desta maravilha por mais outros vinte e cinco anos…

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Cinema, Crítica

O estranho vôo da distópica Bacurau.

Ok, é distopia sim…

Bacurau, longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é uma distopia daquelas que reviram sua cabeça de um modo único, mas é também dessas que se enredam e enviesam esses nós chamados tradição e modernidade. Direi que o filme é um nó cego repleto de elementos que despontam da tela, nos interrogam sobre nosso lugar/ser atual e nos obriga à tomada de posição. E, antes, Bacurau não é um filme para que muitos compreendam suas camadas subtextuais, mas muitos o verão porque esperam muito da experiência que ele oferece.

Há um jogo em Bacurau. Sim, os vilões, os forasteiros, estão lá naquela comunidade no meio do nada do sertão nordestino para um jogo sanguinário: temos um grande battle royale ao ar livre em que os estrangeiros, ajudados po uns fulanos do sudeste, preencher seus vazios individuais com uma boa dose de ultraviolência.

Sim, amiguinhos: a laranja do titio Burguess é descascada para dar lugar ao suco psicodélico da trama orquestrada por Kleber e Juliano…

Cartaz de Bacurau de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Porém, neste caldeirão alucinante, os forasteiros e os sudestinos não contavam que uma comunidade nos rincões do sertão detêm e cultivam seus vínculos, sua identidade, seus valores… Bacurau, para além de uma distopia, versa sobre o tecido que nos une, que nos identifica e que nos leva à tomada de ação, do revide — como na sensacional de/referência a John Carpenter e seu Assalto à 13ª DP —  e não é obra do acaso que as reações de todos os personagens do longa sejam, ao mesmo tempo, violentas e de uma busca urgente pela autopreservação comunitária, vide a reação ao playboizinho prefeito da cidade onde a comunidade de Bacurau está inserida.

Por outro lado, é provável que você não tenha se dado conta, mas o pássaro que empresta seu nome ao filme, o tal bacurau, como bem cantou Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, aquele que encarnou a imagem deste nordeste que não se dobra, é uma ave de rapina que “pega, mata e come”: o povo de Bacurau entende que sua voracidade hiperindividual deriva, sim, daquela ave que observa, ronda e ataca/devora sua presa. É por isso que buraco que Lunga e seus parceiros cavam para a tocaia contra os forasteiros — e no qual “enterram” um dos prisioneiros — reflete este lugar que devora suas presas e que, sim, pega, mata e come.

A dinâmica da identidade de autopreservação comunitária se insurge ainda mais vigorosa quado dois dos tais forasteiros gamers deste PUBG de carne e osso ambientado em Bacurau resolvem partir para cima de um casal de anciãos… Sim, eles vêem o casal de curandeiros da comunidade como velhos prontos para o abate, mas, para surpresa de uma estupefata garota com os dedos reduzidos a nacos após ver a cabeça de seu companheiro explodir como uma melancia, o casal de velhos era uma dupla de trabucos fumegantes nas mãos: são bacamarteiros e não apenas moradores de uma comunidade dos rincões nordestinos, mas guardiões de uma tradição que se contrapõe a modernidade louca de seus jogos.

E é assim que Bacurau se transforma em um emaranhado de subtextos que, reunidos, mais que contar uma alegoria da resistência de uma comunidade contra o arbítrio, narra muito sobre os nossos dias e sobre o que nos aguarda em um futuro possível. Para os desavisado, uma das chaves que transformam qualquer distopia em uma “visão do possível” é a amplificação do real às raias do absurdo e do non-sense todas promovem.

Sim, Bacurau é uma distopia: daquelas que nos assombram, nos ensinam e nos previnem sobre o que está por vir.

Como já disseram, Bacurau é barra!

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Sobre a vertigem…

Confesso que tudo o que me resta por dentro após assistir o documentário Democracia em Vertigem da diretora Petra Costa é tão somente desprezo e o mais cristalino, frio e nada incômodo ódio. O longa desvenda muito o que estamos a sentir nas últimas semanas, mas, pior, revela que as razões para os que, iguais a mim, questionavam esta tragédia farsesca, compreendiam a verdade oculta que nos atormenta.

O ponto de partida do longa de Petra é preciso: a esperança…

Aquela esperança que a todos envolveu e que brotou quando eleição de Luis Inácio “Lula” da Silva em 2002; uma que nos conduzindo com materialização de alguns anseios nos primeiros mandatos; a mesma esperança que nos fez ver uma mulher eleita presidente pela primeira vez em um país machista, misógino e canalha como este.

Uma esperança que sucumbe à tristeza e decepção que minara, desestruturara e destituira Dilma Roussef da presidência em 2016. Em seu lugar, sentimos o asco contínuo pelo que é colocado ilusoriamente: um governo de homens brancos, velhos… Ascende, no lugar de quem fora eleita pelo povo, um governo originado por um “grande acordo nacional com o Supremo e tudo” que procurará reestabelecer a “tradição” desigual de um país desigual e autoritário.

O filme de Petra Costa é feliz por mostrar nossos descaminhos, nossa tristeza, nossas mazelas e a distância irreconciliável que ora nos separa: Democracia em Vertigem é feliz ao demonstrar que ainda estamos longe de qualquer diálogo ou conciliação porque quem poderia trazer tal conciliar está preso por ousar desafiar as dinâmicas que sempre serviram para nos identificar como país.

“O retrato da nossa queda e de como esta ainda não terminou” poderia ser o resumo deste documentário que nos supre com imagens e falas poderosas capazes de traduzir a tristeza que nos une e o incômodo silêncio que nos envolve.

Silêncio. Ele está presente em todo o filme. Petra Costa dosa este mesmo silêncio com uma fotografia arrebatadora e momentos que pedem este mesmo silêncio para que possamos entender o que se mudou em nosso seio. Democracia em Vertigem demorará a ser superado como a mais fiel tradução dos anos em que a desesperança nos solapou.

Parabéns a Petra Costa por nos mostrar que ainda temos um longo caminhoa percorrer.

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Um redesenho em curso: o Jornalismo não será o mesmo após a #VazaJato do The Intercept Brasil

Enquanto o The Intercept Brasil segue desnudando os bastidores da Republiqueta Bananeira de Curitiba, talvez devessemos atentar para o redesenho que as revelações que a equipe comandada por Glenn Greenwald vem promovendo no cerne da própria prática jornalística e nos fundamentos de uma deontologia da profissão por aqui.

Desde o domingo, quando liberou partes da grande reportagem que promete devassar as relacões espúrias mantidas pelo ex-juiz e atual ministro da Justiça Sérgio Moro, o procurador e coordenador da Operação Lava-Jato em Curitiba Deltan Dallagnol e membros da força-tarefa da mesma operação, o The Intercept Brasil recorre a diferentes fundamentos jornalísticos que, senão esquecidos, pairavam sobre uma névoa que ignorava sua existência.

Não só a questão do sigilo sobre tudo o que diga respeito às fontes das informações/denúncias publicadas pelo site, mas sobre os detalhes de como estas mesmas informações são apresentadas, seus detalhes, seu impacto e como este dialoga com o compromisso ético de informar com clareza, sem subterfúgios ou arestas.

Se a partir de domingo diferentes jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão se desdobram para compreender o que proveu o The Intercept com o conteúdo sensível que ora tem sido revelado – criando culpados, sugerindo possibilidades ou mesmo adotando narrativas as mais non-sense -, a verdade é que a publicação tem se mostrado uma fortaleza na manutenção de seu protagonismo jornalístico e ético.

Ainda é cedo para afirmarmos os impactos que estas reportagens terão nos planos jurídico, político e social, mas o que tem sido mostrado e o que se apresenta como possível/passível de publicação pelo site aponta para um caminho sem volta.

Parabéns ao The Intercept: vocês são os donos da narrativa e, durante muito, esta sequência de eventos e publicações alimentarão os cursos de Jornalismo…

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Quando as “forças ocultas” agem e o resultado a História nos conta…

O governo – ou desgoverno – de Jair Bolsonaro baila bêbado à beira do abismo. Já sabíamos que assim seria, mas não imaginávamos que as nossas piores previsões se confirmariam em mirrados cinco meses. Não tivemos sequer um mês em que a turba de mentecaptos que conduz tal governo de néscios acertasse uma sequer: Bolsonaro conseguiu incendiar o país contra si e a prova está no sucesso das manifestações desta semana contra os cortes nas verbas para Universidades e Institutos Federais.

Milhares de “Idiotas Úteis” e “Imbecis” ganharam as ruas no dia 15 e mandaram um recado que desconcertaram tanto Bolsonaro quanto seus séquito de ineptos, desafiando o mito e reduzindo-o a uma maçaroca em completo desespero e despreparo.

Jair Messias Bolsonaro está nu em seu quinto mês com fortes indicações de que, sem um redesenho profundo e um trabalho de descontrução/contenção dos arroubos delirantes do presidente eleito, este regime terminará de forma não tão súbita como muitos poderiam imaginar, mas ainda assim supreendente: seja por força de um eventual e por hora hipotético processo de impeachment – motivado por deslizes do presidente ou por eventuais tentativas deste de intervir em casos que relacionassem eventualmente seus filhos em práticas nada louváveis – ou por sua capitulação pura e simples.

Não por acaso, depois do presidente distribuir entre os seus um artigo confuso que sugeria o país como que “sequestrado por corporações” e que forças obscuras conspirariam para transformar o Estado em algo ingovernável, as apostas que Bolsonaro poderia lançar mão das mesmas e confusas “forças ocultas” que conspiraram para que Jânio Quadros renunciasse em 1961 ganharam força.

Bolsonaro e Jânio Quadros guardam semelhanças intrigantes, mas esclarecedoras: como Jânio, Bolsonaro foi eleito por uma composição de partidos sem relevância – Jânio era independente; Bolsonaro usou o PSL como legenda -, coleciona desentendimentos com os poderes legislativo, detém uma notória inabilidade para contornar seus problemas e, como não poderia deixar de ser, rapidamente tem visto sua maioria desmoronando em praça pública.

O destino de Bolsonaro é um incógnita, verdade… Mas tão verdadeira quanto é a possibilidade de uma história relativamente recente repetir-se. Estas semelhanças entre o destino de Jânio Quadros e o atual cenário envolvendo Bolsonaro e os seus demonstra que a História, com capitular, é algo cíclica. Este redesenho de forças em curso aponta que o jogo em curso é também imprevisível…

Em todo caso, o vice de Bolsonaro está neste momento na China. Em 1961, estava João Goulart. O resto, claro, é História: uma já escrita; a outra em processo. Um processo, entretanto, bastante semelhante àquele experimentado por Jânio. Se Bolsonaro souber ler e interpretar algo da História verá que as tais “forças” que agiram sobre Jânio estavam tão somente na cabeça dele…

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